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Entrevista com Roberto Passeri: vencedor na categoria "Não-Ficção" do II Prêmio Book Brasil

Atualizado: Abr 15



Roberto Passeri vencedor do "Melhor livro de Não-ficção 2020" no II Prêmio Book Brasil, é jornalista, escritor e roteirista freelancer com experiência no mercado audiovisual. Já escreveu para Globoplay, Netflix, SporTV, NBC Universal, Multishow, entre outros canais. Em 2017, mudou-se para Chapecó e mergulhou nos escombros afetivos da maior tragédia da história do esporte brasileiro. Nos anos seguintes, concluiu o curso de formação da UEFA e também a edição do livro "Infinitos Lutos - De histórias não contadas". Atualmente, dedica-se à escrita de contos, crônicas e roteiros.


Apesar dos seus trabalhos estarem ligados à palavra escrita, cada um tem sua especificidade, com qual deles você se identificou primeiro? Jornalismo, literatura, roteiro ou audiovisual? Ou tudo foi se conectando naturalmente?


Roberto: O texto, assim de uma forma mais geral, está presente desde que me entendo por pessoa, no sentido mesmo de não me conhecer sem a necessidade de escrever (ainda que fossem meros rabiscos). O Jornalismo é... uma relação de amor e ódio. Com a cabeça de hoje, teria escolhido estudar outra coisa, mas com a cabeça dos 17 parecia o único lugar possível. Nunca me vi exclusivamente como jornalista, exerci muito pouco além da experiência em Chapecó. Entretanto, não é algo que eu possa virar as costas - menos ainda nestes tempos -, é quase como um dever cívico. O roteiro é uma coisa bem mais recente e que está me atraindo numa velocidade incrível. Sou viciado em filmes, séries e documentários, então é um universo familiar, mas que ao mesmo tempo traz aquele friozinho na barriga e a vontade de meter a cara.

Em que momento você decidiu escrever "Infinitos Lutos"? O que foi primordial para a decisão de publicar?


Roberto: O Prefácio do livro fala bastante sobre isso. Eu trabalhava com redação publicitária e me sentia cada vez mais distante do Jornalismo e cada vez mais vazio de propósito nas coisas que escrevia. Aquela notícia me impactou demais, ficava pensando em cada uma das histórias em particular, em todas as camadas da tragédia, naquela cidade pequena até então desconhecida da maioria dos brasileiros... o que tinha lá e o que teria depois? Quantas formas há de se lidar com o absurdo e com a dor? O que a “grande imprensa” deixaria passar se preocupando apenas com aquela velha narrativa de superação que não cabe para todos? Enfim, eram muitas coisas girando na minha cabeça que, aliadas a uma mania que tenho de partir, me empurraram para viver em Chapecó por sete meses. Você foi uma criança incentivada à leitura ou descobriu essa paixão por conta própria? Existe alguma inspiração na sua jornada literária?


Roberto: Não de forma tão direta; eu roubava os livros do meu irmão mais velho e também lia escondido as coisas que ele escrevia. Tentava copiá-lo, fazer melhor. Hoje em dia, trabalhamos juntos em alguns projetos e rimos dessa “competição”. Minha avó nunca me incentivou a ler especificamente, mas passava o dia contando histórias fantásticas e isso é nada menos do que a narrativa em seu estado mais puro. É linda a oralidade, seguramente brotaram ali muitas coisas em mim. Também tive a sorte de ter professores maravilhosos de Português e Literatura, pessoas sensíveis a minha inclinação pelo texto e capazes de alimentá-la com referências, dicas e conselhos.

Quais obras literárias ou artísticas marcaram sua vida?


Roberto: Foram muitas, creio que sou produto de cada uma delas em maior ou menor grau e em diferentes estágios da vida. Demian, do Herman Hesse, foi um livro que virou uma chave na minha cabeça na adolescência. O Amor nos Tempos do Cólera, do García Márquez, também. Dias e Noites de Amor e de Guerra, do Eduardo Galeano... E estaria mentindo se não incluísse Harry Potter entre as obras que mudaram meu olhar sobre o poder da fantasia.

Você foi o vencedor da categoria "Não-Ficção" da segunda edição do Prêmio Book Brasil passando pelo júri técnico e na sequência pelo voto popular. Qual a importância que isso acrescenta a sua carreira?


Roberto: Escrever, salvo raríssimas exceções, é conviver com a insegurança. A arte em geral né. Para os autores de primeira viagem, isso se agrava ainda mais. Vencer um Prêmio passando por júri técnico e popular não é uma garantia para minha carreira, mas ajuda a perceber que estou no caminho certo, ameniza os milhares de questionamentos, sossega o diabinho que vive de perguntar se não é melhor fazer outra coisa. No fim, por mais que se negue, nós precisamos de aceitação em alguma medida. Um prêmio é mais que ser aceito, é um recado importante para que aceitemos a nós mesmos como autores.


Pretende escrever outras obras biográficas ou deseja explorar outras formas literárias como a ficção, por exemplo? Conta um pouco sobre os seus projetos futuros.


Roberto: Essa é uma pergunta que também me faço bastante rs. Tenho vontade de explorar quase tudo e acho que é possível. Não me sinto preparado agora para escrever um romance, por exemplo. Acho que ficaria ruim e não tenho a intenção de publicar nada só por publicar. Talvez daqui a alguns anos. Um livro de contos e/ou crônicas é bem mais provável, ainda que eu tenha escrito mais poesia nos últimos tempos. Roteiros eu certamente seguirei fazendo, afinal é o que tem pagado as contas (pobre Literatura...) e me ensinado outro olhar. Bem, falei muito e não disse nada concretamente, isso já dá uma pista sobre como está minha cabeça em relação aos próximos projetos rs.

Na sua opinião, quais políticas públicas devem ser realizadas para que haja mais oportunidades no que se diz respeito ao acesso à leitura em contextos de desigualdade social.


Roberto: Se essa pergunta me fosse feita há alguns anos eu provavelmente responderia com mais ideias e entusiasmo, mas regredimos tanto no que diz respeito à Educação e Cultura que eu sinceramente nem sei por onde começar. “Políticas públicas” e “acesso à leitura em contexto de desigualdade” são termos que hoje beiram a utopia no Brasil. Já ficaria aliviado se parassem de matar jovens negros, por exemplo, o que no Rio de Janeiro parece a única política pública efetiva. O último governador gostava de fuzil, nunca vi falar de leitura. O último prefeito tentou censurar livros na Bienal, vocês devem lembrar. O atual presidente, bem, empenha todos os seus esforços em acabar com a “ditadura comunista” das escolas e das universidades públicas, aparelhar o MEC, xingar Paulo Freire e os livros didáticos.

O que você diria ao Roberto aos quinze anos se pudesse dar um conselho ou alertar sobre o futuro? Principalmente no que diz respeito à jornada literária.


Roberto: Olha, acho que vi filmes demais sobre os perigos de alterar detalhes no passado para querer mexer com isso. Quero dizer, tenho medo de que numa tentativa de “proteger” ou “aperfeiçoar” o Roberto de 15 anos, acabasse lhe/me tirando experiências importantes, dores que fazem parte da jornada individual de cada um de nós - não só como escritores, mas como seres humanos. Talvez desse apenas conselhos mais genéricos, do tipo “escute mais os outros porque esses teus 15 anos não valem grande coisa aqui na vida adulta”. E também “comece a fazer terapia já, meu pobre rapaz” rs.


Contato: https://www.instagram.com/betopasseri/



Por Marcos de Sá

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